sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Entre

Me sentir assim
Não entende
Mas é o fim
Porque eu sou ela
Sou fadada a ver destinos
Fadada a escrever amores
Mas não
Não vivê-los
Não compreendê-los
(In)seguramente pensar
Que seria digna
De palavras
E ambições
Tremores e paixões
(In)discutivelmente desejar
Ao menos que fosse hoje
Ou por essa noite
De alegria
Que o dia
Não me deixasse só
Mas que preenchesse
Com o calor
De se nos dar
Um nó

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O último terço do quarto

Hoje eu durmo
Com vinte
Convite

Capto captando
Olho olhando

Disfarço o embaraço
Combino o apreço
Desmereço
Recomeço

Desvio na volta
Dilato
O retorno me contorna
Pela borda

Disfarço

Infinito
é o que me cabe no começo do tempo
que
um dia
julguei perdido

Nunca
é o que me persegue
na esperança de me contar
algo
que não ouvi falar

Sempre
é o que me guarda
no peito
quando me lembro
do que já passou

Depois
é verbo não conjugado

Talvez
é adjetivo mal passado

Espera
é caos incontrolado

domingo, 25 de outubro de 2015

Café da Manhã

E
de repente
assim foi

E
de repente
virou história

E
devagar
a gente foi se esquecendo

E
dilatar
fui esperando

E
sem pesar
passou

E
sem parar
o tempo continuou

E
sem contar
os dias passaram

E
ao contrário
não te esqueci

E
por outro lado
nem era pra ser

E
enfim
te conto como se fosse mais uma daquelas histórias de café da manhã

domingo, 18 de outubro de 2015

A vida é feita pra quem segue.

Eu começava a ponderar o que eu queria entender. Me perguntava mas não encontrava o sentido ou mesmo o aviso de como proceder. Procurava o inverso, o manifesto, o processo da seriedade que leva ao riso. Observava e compunha a melodia do nosso encontro, direto ao ponto, diferente do cuidado que repousa no teu canto. Tentava me aproximar e remexia ao tocar, cuidando pra não reparar e esperando pra sonhar. Sentava, mas logo queria levantar. Desviava, mas logo queria voltar a olhar.

Vou ser bem honesta, eu nem te reparava direito até o dia em que comecei a me importar e comecei a querer entender, de curiosidade, o que se passava com você. E foi nessa curiosidade, curtida e em diferença de idade, que eu me peguei sonhando com você. Acordei meio atordoada, meio corada, meio desacreditada que era isso mesmo o que acontecia e se revelava pra mim. E foi assim, que eu comecei com o pensamento que contradizia o meu gesto mas que queria me colocar na sua frente e te perguntar da gente. Queria que dessa vez fosse diferente, que de um jeito meio louco isso fosse pra frente. Queria te dizer contente, com um sorriso no rosto, que você me faz falta. Que tua presença me exalta e que teu olhar pra mim me deixa de um jeito, que eu não sei explicar direito, mas que faz eu querer me perder ali. Agora, pra sair daqui, não quero ter que te pedir mas queria que você soubesse disso tudo e que me dissesse que é absurdo, mas que você aceita. Aproveita.

Eu sei que você foi embora mas ainda espero te ver agora. Só pra ver mesmo. Só pra ficar de longe. Pra tentar entender o que se passa na minha cabeça. Tentar entender essa sensação louca que me vem querendo olhar pra você.

Mas acabou. A sensação não cessou, mas o desejo se esvaiu. Se consumiu em mim. Eu fiquei sentada escutando suas desculpas, e não te culpo mas também não significa que eu queria que fosse assim. Eu esperava poder te dizer o propósito desse texto, o propósito de estar pensando assim.

O dia acabou, enfim.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Fazer Chover, as palavras

(Ao meu amigo, querido, que transforma minhas palavras nas mais lindas músicas. Sempre sou eu quem devo te agradecer, Thiago.)

tentei te escrever um poema
e só saiu inspiração
que depois virou canção
e
quando percebi
tinha perdido a atenção
do que
no fundo
eu queria escrever

seria de coração
e de poema
chamaria as palavras
e as rimas
que faria

eu só queria encantar o seu dia
e te dizer
na calmaria
que a vida passa perto
e se você não corre junto
ela te atropela

queria dizer
que a vida também é bela
como as curvas do seu cabelo
e seu dedilhar no violão
que
com a mais bela perfeição
me escreve uma canção

queria dizer
que eu só tenho a te oferecer
meras palavras
e que você as colore
da mais bela maneira
faz chover delas
as mais lindas melodias

então me encontre
no fim do dia
e me diga
a quem seria
dedicada
essa emoção
que se encontra junto
do poema
que originou
nossa canção

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Miluna

(Esse é pra minha amiga amiga da lua. Ao fenômeno dessa noite, que além de encobrir coloriu a lua de vermelho. Isabella, vamos juntas dançar essa transformação?)

De amor dói o coração
e de novo toca nossa canção

Na noite
ela lá, fria
completa

Se perdendo aos poucos para a sombra
sendo engolida pela escuridão

Espetáculo

E da luz mais intensa
breu

Desse escuro mais denso
e espesso
sangue

De pouco em pouco
se esvai
e se transforma

Por amor faço um pedido
e por ele mesmo
peço compreensão

Energia que emana
na longa
consagração

Vem cá
dança comigo essa transformação

Vamos
ao som da emoção

E não importa a distração
meu olhar é seu
e com razão
afinal
são ciclos
que começam e se fecham

E agora quase lá
espero te ver completa
complexa
convexa
imensidão

Me conta mais uma vez
como fica esse coração
e me explica
se eu devo ou não

Com toda essa explosão
expansão
tem gente que perde o momento de contemplação
fica olhando pela contramão

E por fim
se esconde assim
sem mais nem menos

Vem me dizer
e conta como foi
o prazer de se esconder
por detrás
da imensidão

Lá está ela
vermelha pela janela
me encarando
de coração
e me olhando
por dentro da alma
sem dar explicação
sem me contar a intenção
ou a direção
que vai me arrastar
mas me deixo levar

Eu queria conversar
sozinha contigo
pedir abrigo
e solidão
buscar ao seu lado
a companhia
que me completa
o coração

E lá do fundo
com toda contemplação
toda disposição
e sinceridade
agradeço
e me despeço
buscando
então
renovação

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Outro dia eu estava sonhando acordada

Eu só quero te esquecer!
Você mexe comigo e eu não consigo fazer nada
Eu não te tiro da cabeça
Ou melhor, você não sai de lá
Parece provocação, parece que é de propósito
Parece que é só pra me tirar do sério
Só pra eu te desejar
Só pra você ter aquele gosto de saber que tem alguém pensando em você
Parece de propósito
Eu tenho essa ânsia e você me aparece no campo de visão
Você vem me perseguir sem nem saber que o faz
Talvez não seja algo romântico (eu bem acho que não é)
Mas é sim um desejo
Daqueles desejos carnais
Daqueles desejos de te possuir e de me deixar ser possuída
Aquele desejo de me deixar ser possuída pelo desejo
Ser possuída pela sensação
Possuída pelo toque
Os corpos nus se tocando
E a gente se pirando e se descobrindo e se reinventando
E se tendo naquela intimidade
Intimidade essa só nossa

É isso que não me sai da cabeça
E você está mais do que incluído nessa fantasia
Fantasia essa que só existe por sua causa

Então, a verdade é que eu não quero te esquecer
Não quero abandonar essa fantasia
Não quero abandonar o desejo
Quero apenas
Consuma-lo

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Aisthesis

A sensação
que vem e toca
Distorce
Amorfa
Emoção
Ilusão
Paixão
É compreensão
e ao mesmo tempo
percepção
É corpo,
movimento
e ação

Inconstante tempo
Penetrante
Que vibra
Pulsa
e deforma
Dilata
Adapta
Retorce
Encolhe e estica
e se multiplica
Se faz perdida
Invadida
e cai

domingo, 20 de setembro de 2015

Entre

(Inspirado e dedicado àquele grupo lindo, que sempre nos convida a adentrar seu apartamento. Obrigada Grupo Tripé por, mais uma vez, me deixar entrar no seu quarto.)

Vem cá
me conta uma coisa
me diz se é isso mesmo que você sente
ou se vamos ficar cada um na sua
sendo gente

Vem cá
e me fala no pé do ouvido
que me quer
de lado ou mesmo
mal passado

Vem cá
me dar um jeito
e contar pra mim direito
que não basta ser amigo
tem que dormir todo mundo junto
amontoado

Vem cá
me ameaça de paixão
e vê se não me enche
vira cada um pro seu lado
pra se enxergar se olhando de costas

Vem cá
mas vem mesmo
porque pra te amar
eu preciso te mostrar
já que não sei falar

Vem cá
entra junto
vem morar aqui
vem se perder um pouco
e desistir do mundo lá fora

Vem cá
pra gente se entrar
pra gente se encontrar
pra gente se largar
pra gente se contar
depois

domingo, 6 de setembro de 2015

Eu não faço questão ao mesmo tempo que faço e não.

Como explicar
ou ao menos
Como começar a perguntar
a entender
Como se dá o processo
ou mesmo
O inverso

a dualidade
Que se enxerga
na diferença
O sorriso
e a seriedade

Lá de longe
observo
Inquieto
disperso
Convexo

o pretexto
Era o mesmo
mas não se concretizava
No espaço
entre a gente
Penetrante
cortante
Afiado

mas afinado mesmo
Foi sua nota
tocada

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Ao São

(Ao concerto do Madrigal de Brasília, que pude novamente assistir e me apaixonar.)

III.
Movimento inquietante
olhar distante
encontro permanente
mas que só
acontece
de longe

Movimento involuntário
que
ao contrário
do que se pensa
só bate de frente
quando indevido

IV.
No dado instante pertinente e relevante na tarde de sol quente se estende na minha frente e distante de repente, corre.

O encontro se faz conjunto quando passo a te entender, quando passo a dizer o que espero receber e me contenho para não pular em seus braços e seus cantos que de canto me encantam.

V.
O som que me arrepia
distrai
e se esvai no espaço
mas fica aqui dentro
guardado no peito
quente
contente
desponta
sorridente
atrás do teu sorriso
que chega sorrateiro
pelo canto dos lábios
mas que se denuncia
nos olhos
e no vermelho
do teu rosto

E eu me encanto
de um jeito
sem jeito
com esse seu jeito
e todo seu trejeito
apesar do seu conceito
ser meio
sem jeito
com todo
preceito
que se pode
ter

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A Poética do Solilóquio

(Pela perda.)

Nada
Vazio
Encarando a imensidão
Ninguém sabe a dor da perda do outro
Ninguém conhece o sofrimento pleno

Imóvel
Estático
Paralisado perante o céu azul
Que pode ser escuro ou claro
Que pode ficar cinza também
Coberto de nuvens

Até cair água

A melhor água
Aquela que lava
Aquela poética
Que despenca e nos encharca
Sem pedir licença e sem se desculpar

O calado
A calada
Eu

Chega um momento que é só desolação
Chega uma hora que nem a emoção
dá conta

A gente pede baixa
Acerta a diferença
Desconta o tempo aproveitado
E paga o que restou

Mas de resto
Nem o processo
Nem o inverso
Vai dizer se foi bom
Ou ao menos
se valeu a pena

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Colisão

Eu me perguntava se era verdade
Mas duvidava da mentira
Enquanto ponderava o quase
E me despedia do talvez

A questão era simples
Mas requeria atenção
Exigia precisão
E fugia completamente da razão

Entenda
Não me leve a mal
Mas saiba que é normal
Eu olhar pro lado
E fugir do seu olhar

Ainda que eu queira
Eu esqueço de me lembrar
Que o contato da visão 
É quando se aprende a amar

domingo, 14 de junho de 2015

Nuvem

A sua maldade 
Me trás a saudade
Que eu nem me lembro 
Mas que me dói por dentro
O seu desejo 
Me trás o anseio
Que daqui pra frente 
Eu sigo contente
A sua saudade 
Me lembra a maldade
Que me faz sorrir por dentro 
E me esquecer ao relento 
O seu anseio 
Me trás o desejo 
Que hoje, contente 
Espero te ver de frente 
E mesmo que seja de repente 
Quero que saiba que quero 
Quero que saiba que lembro 
Quero que saiba que espero 
Quero que saiba que a sua maldade 
Sempre me deu saudade 
Daquele outro tempo 
Que veio antes 
da vida nos 
acontecer







sexta-feira, 12 de junho de 2015

Valentim

(Inspirado num lindo concerto de amor do Madrigal de Brasília.)

I.
Bomba pulsante
de calor incessante
sem descanso
passante
dispara

Músculo que contrai
sentimento que distrai
sem regra
intrínseco
vibrante


II.
A partir do momento que a espera é superada pelo desejo, que a vontade sobrepõe o medo e que se entende que não há outro jeito, a boca abre e a garganta dispara e canta e o que vem de dentro se sobressai.

O que dizer vai depender do prazer e do querer de se saber compreender o indizível incompreensível gesto manifesto do que é amar.

domingo, 7 de junho de 2015

Tudo Está à Venda

(Inspirado e dedicado à uma galera que me fez sair de mim e me fez sentir assim, pulsante. Obrigada Grupo Tripé pelo seu Novo Espetáculo.)

Uma inquietação que sobe por cima e desce escorrendo pelos dedos soltos. Pessoa solta. É tudo de verdade, mas se você acreditar pode virar representação, pode virar outra coisa, pode virar inquietação. Tudo de novo e voltamos ao começo e voltamos no desejo de dizer o que nos chama. O sangue pulsa nas veias e passeia pelo meu ser me tornando cada vez mais insaciável e tomado pelas palavras que não se calam e não me deixam dormir. Eu nem sei se quero mesmo dormir, não se quero me render à ilusão que é estar sujeito a ver o que minha mente planeja dentro de si. Mas as palavras me deixam cada vez mais sujeito. Eu só quero sair, só quero brincar, só quero tirar a roupa e dançar na chuva, quero pular corda e beijar um estranho. Me leva nessa viagem porque aqui eu não quero ficar. Não quero mais esse lugar quieto, dormente, sereno. Quero as noites frias e o descontentamento com o amanhecer. Eu quero que o dia dure uma semana e que essa semana seja o meu fim. Eu quero despertar. Quero seguir o pulso latente que me percorre por dentro e me tira da cama todas as manhãs que estou fadado a não reagir. Quero a brincadeira de me vestir diferente e reagir consciente ao poder que guardo aqui dentro. A gente sabe que o possui. Mas a gente não usa, a gente se acostuma e não revida quando leva porrada na cara. A gente vira as costas. Tá na hora de dar o murro. É nossa rodada no jogo. Nosso desejo. O povo. Outro dia eu presenciei uma fala que não acreditei, não consegui entender como aquela frase havia saído da boca de uma pessoa que eu julgava consciente das coisas. A luta deve vir de dentro, deve começar no peito e desabrochar até o pé, que finca no chão e não se arreda até conseguir. Vamos agora dançar e celebrar a alegria de estar aqui. Vamos pulsar junto dessa bateria. Vamos celebrar a alegria da luta e a força conjunta que nos cabe aguentar. Vamos alegrar que a batalha há de se findar para, enfim, podermos sentar. É tudo de verdade, mas se você acreditar pode virar relação, pode virar outra coisa, pode virar revolução.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Aberração Cromática

(Estudo de personagem.)

Eu queria te contar uma história. [Não sei bem se devia ou se queria mesmo]. Ela começa outro dia, quando acordei de madrugada perturbada pelos meia sonhos. Acordei e não consegui mais voltar a dormir. Eu precisava pintar. Eu precisava colocar pra fora algo que se entalava e se escondia no meu peito, no meu sujeito singular e incomposto. O meu verbo é intransitivo e eu não consigo complementar. Eu tenho sede de me descobrir mas eu nem sequer sei acordar pra saber se de fato estou viva.

Olhei pela janela e só vi a escuridão. |Fechei|. Eu não precisava de mais escuridão. Eu quero o claro, a claridade, a certeza, ou a incerteza mesmo. Mas a consciência. 

Branco. Quero tudo branco.

Não sai. Não sai. Nada sai!

Eu estou me sentindo imobilizada.

É como se eu fosse sendo amarrada por cada traço que eu não consigo dar, cada pincelada que eu hesito em performar.

Isso tem que acabar.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Sujeito

(Esse vai pras pessoas mais lindas que encontro toda segunda e quarta. "Porque o que a gente faz é amor." BAGGIO, Danielle.)

A presença é a única que acalma
É a única que preenche
A única que me aquece

A saudade é a que dói
É a que lá do fundo me faz lembrar
Que um dia você esteve aqui

Eu aprendi
Que não é só se falando
Que a gente vai se encontrar

Aprendi
Que a gente tem que olhar nos olhos
Pra poder confiar

Eu entendi
Que é só se tocando
Que se sente

Entendi
Que é só vivendo
Que se entende

sábado, 18 de abril de 2015

Sobre muita coisa, e quase nada.

A gente espera do mundo e ele nada nos dá em troca. O pior, é que não é nem do mundo que a gente espera. Não é culpa dele, não vou culpá-lo por nossas falhas, por falhas humanas. Ou melhor, des-humanas. Não vou colocá-lo numa posição quando ela, em mim, é ocupada por pessoas. O mundo é mais. O que somos nós comparado com isso tudo? Nós, humanos, que de humanos pouco temos, convenhamos. Na verdade, acho que somos muito humanos e isso faz com que tenhamos atitudes muito humanas e que, mal interpretadas, são vistas como des-humanas. Talvez não é nem que elas sejam mal interpretadas, mas acabamos as vendo como des-humanas. A verdade é que é tudo muito subjetivo para se tentar tirar alguma conclusão concreta e lógica. Mas não vim falar disso. Eu falava da espera, de se esperar. Acabei falando um pedaço de uma letra de uma música que me veio na cabeça mas que agora não me recordo o nome, ou o resto da letra, e disso puxei o fio da meada. A bem da verdade eu falava da minha espera. Eu estava esperando ou queria esperar ou esperava esperar. Não sei exatamente o quê ou se quer o por quê, mas esperava. A gente, ou eu, sempre espera alguma coisa. Acho que sempre se está à espera de algo. Não é bem aquela espera literal de se sentar em uma poltrona e aguardar madrugada a dentro a volta de quem você sabe que vai demorar ou de quem você fica imaginando se vai realmente voltar. É aquela espera mais figurativa, em que se deseja que algo aconteça, logo se espera que o tal algo aconteça. É a espera nesse sentido, por isso é uma espera, um aguardo, um anseio quase. Suspiro. É impressionante como as pessoas podem nos desapontar. E talvez nem seja porque elas queiram, talvez elas nem saibam. Acho que muito provavelmente elas realmente não saibam. Mas como criamos expectativas, as pessoas acabam nos desapontando sem nem sequer saber que o fizeram. Ficamos magoados e as pessoas nem sabem o porquê. A gente é meio engraçado. Mas não é a graça literal de se ter graça, fazer palhaçada, dar gargalhada, rir ou coisa do tipo. É a graça figurativa, que não se sabe bem explicar mas se usa como expressão, a graça como algo de curioso num fato. Por exemplo, engraçado como nós, humanos, nos apegamos a coisas do nosso cotidiano, a pessoas que mal conhecemos, etc. Ou então, engraçado quando tentamos nos fazer entender explicando algo mais e mais e acabamos por confundir a quem se está explicando o tal algo. Meu Deus, como falar de maneira genérica é confuso, acho que até acabo me perdendo na linha de pensamento. Mas tá aí uma coisa, Deus. Difícil discutir sobre Deus. Cada um com sua visão, seu entendimento, sua crença. Não vou nem entrar nesse mérito. Mas a nossa cultura é tão marcada pela fé do povo, que expressões como "Deus me livre" são comuns até a ateus. Engraçado.

Eu nunca fui muito boa com nomes. Ou números. Ou endereços. Ou caminhos. Ou lembranças. A verdade é que minha memória (ou mesmo minha cabeça) é uma coisa meio louca. Não tem muita hora, é meio de lua, lembra do que gosta e do que que quer, ou (às vezes) do que precisa.

Passei a minha vida inteira em um apartamento só. Eu nem nunca mudei de quarto. Conheço cada cantinho, cada tábua que faz barulho (para não pisar à noite), cada porta que range, o quanto cada janela pesa para abrir. Vivi muitas coisas nesse um apartamento. Me lembrava do meu pai quando voltava dos fins de semana que passava com ele, tive um cachorro que com poucos anos faleceu, discuti inúmeras vezes com minha mãe e meu irmão, caí, me machuquei, arranquei meus dentes, andei de skate, de patins (sim, dentro do apartamento), viajei a lugares incríveis assistindo filmes e lendo livros, descansei ao voltar de viagens, escondi objetos pessoais, fiz bagunça, arrumei, conversei sozinha em tudo quanto foi momento e, acima de tudo, já me apaixonei e desapaixonei diversas vezes enquanto morei nele. Se as paredes desse apartamento pudessem falar, contariam toda a minha história, provavelmente até melhor do que eu. Só elas sabem exatamente tudo o que eu passei enquanto morei nele. Só elas saberiam me descrever como ninguém, só elas me entendem, só elas. Só elas sabem o que eu aprontei dentro daquele lugar. O apartamento em si me deu vida. Cresci lá. Mas mais do que isso, o meu quarto. Que desde o princípio foi meu. Antes eu até o dividia com meu irmão, mas chegou um dia que ele teve de sair. Era meu. Só meu. Agora, se as paredes daquele quarto pudessem falar... a história seria muita mais divertida, intensa e emocionante. Se algum lugar me conhece naquele antigo lugar, é aquele quarto. Vou sentir falta das tábuas que rangiam ao se pisar, que depois fui aprendendo a dosar o peso e não fazer barulho. Vou sentir falta das portas dos armários que enchi com adesivos. Vou sentir falta das paredes que por diversos dias e noites me escutaram rir, chorar, xingar, desabafar, me expressar. Mas mais do que tudo isso, eu agradeço por estar me despedindo. Esse dia ia chegar e que bom que ele veio em paz, veio calmo e sereno e eu pude parar para refletir. Era exatamente disso que eu estava precisando para definitivamente mudar a minha vida. A pessoa que eu era e a pessoa que eu quero ser daqui pra frente. Era mais disso que eu estava precisando do que qualquer outra mudança que já aconteceu. Só mais essa, pra eternizar.

Eu acho engraçado quando paro pra pensar no que me apego. Um apartamento. Coisa mais esquisita para se apegar. Mas não sei, talvez seja mais do que isso, mais do que apenas um apartamento. São vinte anos. São toda a minha vida.

Mas também não são quase nada.

domingo, 12 de abril de 2015

O que não termina quando acaba.

Pinga a gota
Cai a chuva
Conta a gota
E chove o dia
Escorre
Esconde
E pia
Pia
Torneira vazia
Pingando
Dezembro
O dia
Dizia
Seria
Você
Quem viria
À noite
Vazia
Vagando
Sonhando
Lembrando
Me contando
Que seria
Gota a gota
Que se enchia
Uma lágrima

sexta-feira, 3 de abril de 2015

a caso

(algum)as falas me chamam
(algum)as palavras me encantam
(algum)as distâncias me proíbem
(algum)as horas não saciam

os dias passam e eu preciso
o rosto vai ficando nublado
o cheiro cada vez mais distante
o sorriso, apagado

(algum)as risadas me coram
(algum)as tiradas me disfarçam
(algum)as trocas me engrandessem
(algum)as coisas apenas existem

os olhares vão se demorando
a espera vai me consumindo
de longe me ouço chorando
o que não passa, agora, é o ano

domingo, 8 de março de 2015

Soneto Desafinado

Bateu a cabeça na parede
Acordou expressionista
Se julgou equilibrista
Por balancear a vida no ar

O sol lhe raiou quadrado
A comida desceu a seco
O dia ficou vermelho
Anoitecendo quente, preto, verde

Ela se perguntou se a vida é só isso
Se ao invés disso
Não se pode ter sorriso

Queria se perder
No abismo
De ser dois

quinta-feira, 5 de março de 2015

Ouvi dizer que escrever sobre as vontades ajuda

Eu queria escrever. Eu queria escrever palavras bonitas. Eu queria escrever poemas e histórias incríveis que deixariam as pessoas boquiabertas. Eu queria escrever e encantar os leitores com minha destreza com as palavras. Eu queria escrever e descrever os detalhes sobre um dia ou uma vida ou um ano. Eu queria escrever sobre aquele dia. Eu queria escrever e recordar e guardar as memórias nas minhas palavras. Eu queria escrever e queria te dizer para me encontrar naquele lugar. Eu queria escrever e queria te ver pra gente se dizer o que nem escrito pode ser. Eu queria escrever e me acabar de chorar. Eu queria escrever e emocionar as pessoas. Eu queria escrever e fazer as pessoas morrerem de rir ou de chorar. Eu queria escrever e provavelmente queria que as pessoas chorassem. Eu queria escrever e fazer as pessoas entenderem a minha dor. Eu queria escrever e queria mostrar e escancarar as minhas entranhas para que os outros me vissem. Eu queria escrever contos mirabolantes e viagens épicas ao fim do mundo. Eu queria escrever do amor mais verdadeiro e da paixão mais fulminante. Eu queria escrever da morte mais morrida e da vida mais vivida. Eu queria escrever sobre o mendigo que outro dia me pediu esmola no sinal. Eu queria escrever sobre seres fantásticos e seus mundos. Eu queria escrever sobre pessoas. Eu queria escrever e marcar as pessoas. Eu queria escrever e queria que minhas frases ecoassem pelo tempo. Eu queria escrever para poder deixar minha marca na história. Eu queria escrever para lembrar e para lembrarem de mim. Eu queria escrever por medo de esquecer. Eu queria escrever para não me esquecerem e não me deixarem de lado. Eu queria escrever para que me vissem sem me ver. Eu queria apenas escrever.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Ao Som dos Bandolins

De choro me desfiz e te refiz. No palco, a atriz se diz meretriz, mas só condiz dizer que o que se sabe é pouco. E o toco, reforço, lá fora, te espera pra sentar e se acalmar, acalentar e se deixar pelo luar. Mas não tem lua, lá fora chove e a água leva embora as impurezas, as indefesas, as destrezas e nos convida a aproveitar. A dançar nessa água sagrada que nos banha do céu, nos cobre de algo parecido com mel. Só me diz se é real ou se é melhor deixar de lado, o que era o contrário do inverso do avesso do desigual que se julga anormal pelo jeito ideal de se dançar assim, ao som dos bandolins. Mas se ela apertasse desse jeito, ao som dos bandolins, me diz se seria direito que se cantasse e se rodasse como criança menina de saia na rua, de noite insegura, com jeito se apura e de longe se culpa e desculpa se soei mal. É que a madrugada me pegou de jeito e se desenvolveu ao som dos bandolins e me fez assim, como uma criança dançando a noite e valsando até o fim, pra se dizer feliz afim de me julgar amada ao som dos bandolins.

(16/12/2014)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Indigestão

Do vício
Ao verso
Do reverso
Ao inverso
Do avesso
Ao contrário
Do acesso
Ao literário

Do disposto temporário que fosse junto, honorário
Confesso que o traço me pegou pelo contrário
Reverso avesso indigesto
Manifesto

Eu peço
Despeço
Tropeço
Arremesso
Mas de resto
Só, sem acesso.